Entender os motivos que levam pessoas á explorarem o Holocausto como tema de carnaval exige alguns malabarismos mentais, em primeiro lugar é necessário se entender que isto só seria possível no Brasil, em segundo que Carnaval não é um evento destinado á reflexão mas sim á ironia, e colocar um carro alegórico com figuras de corpos do pior crime da humanidade avança além da fronteira da polêmica, em último lugar o Carnaval é dinheiro, é uma industria e vive de marketing nacional e internacional, portanto explorar um tema destes tendo em vista vencer uma competição lança sérias questões éticas.
A noticia não passou despercebida á imprensa alemã e a reação dos leitores de alguns jornais e magazines não foi nada lisongeira aos brasileiros, como por exemplo a notícia e comentários de leitores publicadas no magazine Stern…
Hitler feiert keinen Karneval mehr…
Hitler não vai mais festejar o Carnaval…
Com esta manchete o Stern explica o protesto do porta voz da viradouro em relação á determinação da justiça carioca em não deixar o carro alegórico sair na avenida, o presidente acusou os responsáveis de intransigência , da mesma forma uma outra afirmação de um membro da escola de samba de que a apresentação teria o objetivo em mostrar aos brasileiros as barbaridades da segunda guerra, pois eles não conhecem em sua maioria o crime nazista contra os judeus sic.
¨Um espetáculo repugnante aos sobreviventes do Holocausto e seus familiares¨
O Carnaval não deve ser usado como instrumento de uma cultura de ódio ou racismo, juiza Juliana Kalichszteim.
A comunidade judaíca do Rio de Janeiro protestou e conseguiu a interdição da exibição da peça polêmica, por outro lado a escola de samba reclama que a proibição é um ato de censura antes de um ato de justiça, além disto afirmam preparar uma ¨grande surpresa¨ na avenida em função dos transtornos causados pela interdição na última hora, oque soa francamente como uma ameaça de vingança, mas neste aspecto é necessário esperar os acontecimentos antes de se fazer especulações.
A Stern além disto lembrou as proibições passadas em relação ao uso de simbolos religiosos em desfiles, um deles atingiu Joãozinho Trinta quando este tentou exibir uma figura de Cristo como mendigo, a figura foi coberta por uma pano na época e o carro desfilou com um cartaz com criticas á censura, a Igreja Católica na ocasião foi a responsável pela proibição, aliás Joãozinho Trinta teve problemas duas vezes com a Igreja em 1989 e 2004 respectivamente.
Na minha opinião a direção da escola mostrou uma enorme ignorância, falta de respeito e falta de cultura ao decidir explorar um tema sensivel como este da forma como fez, não há dúvida que a liberdade intelectual e artistica tem que ser respeitada, mas existem limites para a expressão de ambos e este limite foi atingido com a utilização questionável da memória de mortos e do sentimento de seus descendentes.
Faltou diálogo entre os organizadores da Viradouro e a comunidade judaíca, o principal responsável pela postura da comunidade dos judeus no Rio de Janeiro não pude avaliar, algumas informações importantes para se entender o conflito entre as partes estão faltando, por exemplo…
Teria a Escola de Samba consultado a comunidade judaíca sobre a questão ? Caso sim, a comunidade apresentou alguma sugestão ou oferta de consultoria aos responsáveis pela organização da Escola ? Ou os dirigentes agiram com a tipica postura de quem pensa que o sentimento alheio é marginal e oque vale são seus próprios interesses comerciais ?
É evidente que o carnaval é componente da cultura brasileira e sua forma de expressão não encontra muitos paralelos no mundo de hoje, mas como o carnaval brasileiro tem importância internacional, é noticia em todo o mundo.
Cabem portanto mais algumas indagações.
Os dirigentes da escola chegaram a avaliar o impacto de seu trabalho num mundo onde a imagem do Judeu é associada com a imagem errada e injusta de perseguição de palestinos ? Como se todos os israelenses tivessem o interesse imediato em dizima-los ? Entendem estes ¨artistas carnavalescos¨que existe um projeto para eliminação de Israel por parte de extremistas islâmicos, entre eles Ahmadinedjad, e que a banalização e ridicularização da holocausto serve á este propósito ? Como aliás se comprova no discurso de ódio e atividades á beira irracionalidade como congressos anti-semitas e patrocinio de atividades com igual conteúdo ?
E por fim, se carnaval é a ¨Festa da Alegria¨… que raio de alegria o tal carro alegórico queria transmitir, a alegria dos antisemitas ?
Pode ser se olharmos os indices de rejeição de Israel entre os brasileiros, um dos maiores no mundo ocidental.
No final das contas tenho a impressão que o caso foi uma tragédia em muitos aspectos, e o mais importante deles foi uma chance perdida em se mostrar ao mundo o melhor lado da sociedade brasileira, aquele lado que mostra a convivência pacifica entre religiões e etnias, onde apesar de tantos problemas sociais ainda esperando solução o Brasil é um exemplo á ser considerado.
A comunidade judaica pela sua integração poderia ter cooperado e ter colocado seu proprio bloco na rua, e com isto calar a boca de idiotas úteis e inúteis da esquerda e direita nacional, mostrar ao mundo a face real do judeu cidadão brasileiro, por outro lado a Escola de samba poderia ter lucrado muito mais se seus dirigentes tivessem um pouco mais do que um nível elementar de educação, sua atitude foi lastimável dentro dos aspectos mais elementares de respeito e cultura geral, no final fica sómente o simbolo de uma sociedade onde a mediocridade impera e os coadjuvantes nao conseguem ver o papel ridiculo que fizeram.
Felix
Atualização 03.02.2008
Um bom artigo publicado na página Globo.com fornece mais alguns detalhes sobre o caso, se algum leitor deste post conhecer uma matéria interessante que queira compartilhar…é só incluir o link em algum comentário.
“A federação soube do carro pela imprensa e tentava uma solução educativa com a escola, como a colocação de uma faixa ou uma placa com os dizeres “Holocausto nunca mais” para contextualizar o carro, para que não ficasse gratuito no meio do desfile. Mas ao saber que teria um sambista representando Hitler, a federação considerou isso um vilipêndio, uma falta de respeito não só com os judeus, mas também homossexuais, ciganos e todos os outros segmentos da sociedade que foram perseguidos pelos nazistas”
Ricardo Brajterman, Federação Israelita do Rio de Janeiro.









Muito interessante o seu post sobre este desfile da Viradouro. Concordo com a proibição e sabemos que a idéia de levar o que era pretendido para a Avenida envolveu um tanto de ignorância e muito de soberba.
Em relação a este tema eu escrevi um texto e gostaria de convidá-lo a ler. Está no meu blog, o Recanto das Palavras. O link está abaixo:
http://recantodaspalavras.wordpress.com/2008/02/02/carro-alegorico-proibido-ele-queria-vir-de-baiana/
Obrigado pela contribuição Jorge !
Aguarde a minha visita, gde. Abraço.
Felix
Oi Feliz,
Olha o querido Jorge aí em cima também.
Eu fiz 2 textos sobre o caso:
http://depressa.wordpress.com/2008/02/02/paulo-barrao-isso-sim/
http://depressa.wordpress.com/2008/02/04/vetem-paulo-barrao/
Gostei do seu ponto de vista, trouxe acréscimos à discussão do tema.
É uma pena que a Viradouro, que resolveu levantar bandeira de liberdade de expressão, não possibilite aos visitantes de seu site um lugar para debater o ocorrido. Não é um paradoxo?
FeliZ, não. FeliX, disse eu. Z e X são pertinho ^.^
Valeu Anita,
A questão do paradoxo que você levantou é interessante, mas cá entre nós…considerando a forma infantil (que aliás você bem salientou em seu Blog) com que eles não só realizaram..mas também tentaram justificar a ¨pisada na bola¨, é de se esperar que não estejam preparados para uma discussão pública sobre o assunto.
Um abração !
Felix
Felix e Anita,
Esta discussão é muito interessante proveitosa mesmo. Tenho amigos que viajaram para a Europa e um deles, certa vez foi “encarado” por um desses jovens que se autodenominam skinheads e tem como ideologia a mesma da nefanda figura com bigodinho engraçado. Este meu amigo deu um chega-pra-lá e o cara saiu resmungando.
Imagine que aqui, um país totalmente diverso da problemática que suscitou o surgimento dos regimes totalitários do início do século XX e que tem, mesmo que de forma bem parca um sistema social que permite a igualdade em vários níveis, estes mesmo jovens como o citado acima observando e absorvendo de forma errada a suposta mensagem que o carnavalesco da Viradouro pretendia passar? Se já atacam o outro, este outro no sentido do conceito de Tzvetan Todorov, de forma que parecem usar antolhos e com olhos de antagonismo eterno, o que poderíamos esperar?
Acredito que o carnavalesco da Viradouro tenha imaginado, após loas em seu relação a seu trabalho nos anos anteriores, pensar que tudo pode.
Ontem pela manhã eu estava lendo um artigo do Der Spiegel, traduzido para o Português e que está no site do Uol, em Jornais, que fala justamente sobre como a citada figura nefanda conseguiu conquistar o povo alemão. Em dias passados, também li um artigo no Deutsche Welle sobre como os alemães observam o uso de palavras e conceitos que remetam ao que viveram nas décadas de 1930 e 1940. São bastante cientes sobre estas palavras e conceitos, tanto que todos os anos escolhem “a pior palavra do ano”. Reproduzo parte do texto que está no meu blog: “A terceira colocada foi de arrepiar todos os cabelos. O cardeal de Colônia abriu a boca para dizer, durante um sermão, a seguinte pérola: entartete Kunst (arte degenarada). E não é que os cupinchas daquele cara que usava bigodinho estranho adoravam dizer isto quando queriam difamar e eliminar artistas indesejados? É preciso ter cuidado!”
Um grande abraço e obrigado pela visita ao Recanto das Palavras.
Ah, Jorge, bem lembrado.
Inclusive esse seu post é um primor também.
No documentário “Arquitetura da Destruição” podemos ver o quanto Hitler era patético e frustrado com suas incapacidades artísticas. Ele era algo bem “salieri”, enquanto os judeus eram os “mozarts”. Ciente do que era belo e de sua incapacidade, em seus ataques de megalomania, ao enviar suas tropas para a França, Hitler deu ordens diretas de não atacar Paris devido à sua beleza.
E assim como o Jorge, concordo que Hitler gostaria de desfilar no carnaval, mas eu não sei se seria bem na ala das baianas não, viu Jorge. Acho que o “Du Bigode” ia preferir um daqueles carros onde estava o Wilson. Sabe o Wilson do teu post sobre a transmissão? Pois é:
-Qual seu nome, querida?
_Hita! Hita da Áustria!
Jorge,
O comentário do ¨Entartete Kunst¨ foi mesmo uma infeliz declaração do Cardeal Meisner da cidade de Colônia, a Igreja Católica após Bento XVI ficou um tanto mais conservadora e seus representantes perderam um pouco o pudor em usar certos termos antes considerados tabú.
O problema é a origem Nacional Socialista do termo, daí se tem uma idéia de como os nazistas camuflados na direita alemã atuam, aliás sempre atuaram.
A Alemanha é um país excelente em diversos aspectos, no entanto o racismo é componente cultural deste povo..e viver por aqui exige da pessoa um couro de crocodilo, que o diga seu amigo…
Quanto á influência de ¨pensamentos¨ racistas no Brasil..penso que eles não tem futuro algum, nosso povo é de certa forma meio imune á isto, no entanto existem sim movimentos nacionalistas que usam o antisemitismo como plataforma política, infelizmente as esquerdas adotaram a mesma postura, acabam confundindo crítica política com discriminação, metem os pés pelas mãos desgraçadamente, a imprensa brasileira está cheia destes exemplos.
Porém a situação dos negros nos remete á algumas questões sérias, vou procurar no futuro passar um panorama da situação dos alemães de origem africana na Alemanha para que talvez possamos traçar alguns paralelos.
Anita,
Pois é…além de artista frustrado o adolfinho tinha outros defeitos também…
Hitler era um mau caráter de primeira categoria, um vagabundo que tinha só competência retórica, não gostava de trabalhar nem de estudar, usou um antisemitismo presente tanto na sociedade alemã como austríaca para catapultar sua carreira politica, e pensar que foram os judeus que o ajudaram em Viena, eram eles que compravam as porcarias que ele pintava, aliás Hitler viveu num asilo para mendigos que havia sido contruído por judeus.
Vamos ver quais serão as consequências deste caso da Viradouro.
Um grande abraço á ambos !